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riscos_e_rabiscos

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AECs - Esses Seres Estranhos

Antes de mais quero pedir desculpas por ter enganado resmas de gente involuntariamente. Talvez devesse ter-me explicado melhor mas depreendi que todos saberiam o que é um AEC. Depois, achei que a minha ironia fosse mais óbvia mas, pelos vistos, não foi.

 

Começando pelo princípio, um AEC é um professor das Actividades Extra Curriculares – ou seja, as disciplinas de inglês, música e educação física – recentemente introduzidas no primeiro ciclo, a antiga primária.

Quem é que dá estas disciplinas? Os professores que não são bafejados pela sorte de uma colocação no estado, no vulgo concurso de docentes.

 

Nós, os AECs, muitas vezes com mais habilitações do que os professores que encontramos no 1º ciclo, somos tratados como uma espécie de “lixo”. Trabalhamos a recibos verdes, a remuneração varia (pode oscilar dos 7.5€ até aos 13.5€ à hora), não temos regalias, pagamos os descontos obrigatórios do nosso bolso, não temos subsídio de Natal ou férias, não temos direito a utilizar o material da escola (cartolinas, papéis especiais, folhas vulgares) para realizar trabalhos com os alunos e fotocópias nem em sonhos!

 

Ninguém pergunta a nossa opinião para nada e nem sequer temos voto na matéria. Somos olhados de lado por muitos colegas. Inclusivamente há professores titulares que passam um ano inteiro sem se aproximar de nós. Como se tivéssemos peçonha ou lhe fossemos dar trabalho extra.

Agora pergunto, qual é a diferença entre os AECs e os outros professores? A primeira e mais notória é que uns são colocados por concurso de docentes – com todos os benefícios inerentes – e nós somos os “sobrantes” que, se querem trabalhar ou comer, têm que aceitar estas aulas.

 

Independentemente de tudo isto, exigem de nós que sejamos exímios no nosso trabalho. Trabalhar sem condições. Agora cada um que se desenvencilhe com o material que não tem.

Os alunos são objecto de uma avaliação igual à das outras disciplinas, compreendendo as competências transversais e essenciais, mas depois ninguém nos pergunta mais nada. Se precisamos de ajuda, se está tudo bem, como as turmas se comportam…

 

É nisto que eu me transformei, após 12 anos de aulas e de vir descendo de cavalo para burro. Tenho que me resignar a isto se quero trabalhar dentro da minha área, para a qual tão bem me preparei. Tenho de agradecer ao Ministério da educação as sucessivas medidas que têm vindo a trucidar os professores. 

 

Perceberam agora a ironia do post anterior?

 

 

 

Subi de Posto!

                     

Toca o despertador. Meia endorminhada e com pouca vontade de sair do quentinho dos lençóis, abro um olho, depois o outro e mentalizo-me que tenho de enfrentar o mundo lá fora.

 

Depois de me artilhar contra as agruras do mundo, finalmente saio de casa. Não atrasada mas com pouco tempo para distracções, pelo que não compareci ao encontro marcado com o meu descafeinado. E que falta me fez!

 

Faço rally rua abaixo, mostrando a minha perícia em contornar obstáculos, evitar quedas e desmoronamentos e saltar objectos imprevistos. Estou cada vez mais habilidosa.

 

Consigo atingir o objectivo a que me propus nessa altura: apanhar a camioneta para me levar ao colégio a horas. Aproveitei para verificar os meus registos de avaliação. Eu não seria eu, se não tivesse um engate qualquer na minha papelada. Faltavam-me três registos de avaliação! Raios e coriscos! Mas como sou uma mulher prevenida, tinha uns extras dentro da mala e lá resolvi o assunto.

 

A meio do percurso e após ter apanhado um susto de morte com uma abécula que ultrapassa a minha camioneta e quase tem um choque frontal com a que estava estacionada do outro lado, toca o meu telemóvel. Humm… deve ser a minha mãe, pensei eu. Atendi. Afinal era a S. do colégio. “Professora Pessoinha?” “Sim, estou a caminho S. …” “Então já falamos! Até já!”

 

Eu com o meu pessimismo todo pensei: o que será que eu fiz?! Mas não sou eu que me porto mal mas sim os miúdos… alguns!

Finalmente chego ao colégio. Entrego os registos de avaliação e sou “informada” que tenho de comparecer à reunião de professores.

 

Como no outro período fui a única a não estar presente (é normal em todo o lado os AECs serem tratados como se não existissem, eu até tenho o pseudónimo de invisible woman), fiquei realmente espantada!

Vamos lá ver se não fui convocada porque ninguém queria fazer a acta… Eu e as actas temos uma longa história… argh! Cheira-me a esturro. Mas mesmo assim... subi de posto!